View Full Version : O prazer da cutelaria...


cabete
01-19-2010, 10:43 AM
Um convite para entrar no T?nel do Tempo
Marcos Soares Ramos Cabete

Sempre que fa?o minhas l?minas artesanais fotografo-as e envio aos amigos
cadastrados em minha lista de e-mails.

Quando enviei a foto de uma adaga com alguns desenhos florais na l?mina e um cabo de
osso de carneiro rusticamente desenhado um amigo disse-me que havia gostado da adaga, sugeriu-me o nome de ?Cora??o Celta? para ela e comentou sobre a empunhadura
esculpida em um marfim mar?timo ou osso que vinha namorando h? anos em um
antiqu?rio.

Pouco tempo depois notificou-me que havia comprado a empunhadura, que era em
osso de baleia e deveria ter uns 150 anos segundo a an?lise de um especialista.
Fiquei mais surpreso ainda e imensamente honrado com o convite para participar do
resgate desta pe?a em uma opera??o conjunta que lembrou-me aquele seriado ?O T?nel do Tempo?.

Preocupado com minha compet?ncia para a tarefa de fazer a l?mina propus-me a
fazer duas l?minas, enviar-lhe para an?lise e se aprovada alguma este amigo me remeteria algum livro de cutelaria. Ele n?o aguardou as l?minas mas imediatamente enviou-me um excelente livro e o projeto da mesma.

Assim que vi o desenho da l?mina apaixonei-me por ela e embarquei nesta viagem
no tempo.

A 150 anos atr?s os artes?es n?o possu?am furadeiras de coluna, fresas, lixadeiras de
cinta, politrizes e outros equipamentos sofisticados. A ferramenta b?sica era a forja na qual procuravam chegar o mais pr?ximo poss?vel do formato final da pe?a para depois desbast?-la em pedras naturais.

Que a?o um marinheiro usaria para fazer uma adaga? Imaginei que em se tratando
de barcos de madeira teriam grosas e/ou limas para fazerem reparos nas pe?as do barco e que ao se gastarem estas ferramentas certamente seriam escolhidas para fazerem l?minas e outros ferramentas pela qualidade superior de seus a?os. Escolhi ent?o uma barra de uma lima com 1 ?? de largura. Mas o projeto do Amigo tinha uma graciosa guarda integral com uma largura de 40 mm e minha barra s? tinha 30 mm!!

O problema que eu enfrentava certamente tamb?m foi enfrentado in?meras vezes
pelos forjadores antigos. Imaginei ent?o que precisaria recalcar o a?o na regi?o da guarda
para faz?-lo crescer lateralmente at? pouco mais de 40 mm.

Fiz um Fuller de ferro ( ferramenta de forjador ) com perfil quadrado e testei-o em
minha barra. Serviu bem para fazer a espiga mas na hora de recalcar a guarda n?o foi
eficiente, n?o conseguia desferir toda for?a necess?ria, tinha que prender a l?mina na morsa de ferreiro, encaixar o fuller sobre a guarda e bater alternadamente dos dois lados. Dava um contragolpe na m?o que segurava o fuller e com isto acabava colocando pouca for?a e o resultado era quase nulo.

Fiz ent?o uma ferramenta simples que consistiu em pegar uma barra de 2? de
di?metro por 20 cm de comprimento e fazer um furo de ?? no centro da mesma.

Com nova barra de 1095 aquecida usei o fuller de perfil quadrado e estiquei a espiga
da l?mina. Deixei um espa?o para a guarda e fiz um ?pesco?o? na l?mina logo abaixo da
guarda.

A barra aquecida foi ent?o presa pelo pesco?o na morsa de ferreiro, a ferramenta foi
encaixada na espiga apoiando-se sobre a guarda e d?-lhe marreta !! Foi uma del?cia ver o
a?o se moldando e a guarda aparecendo sob a ferramenta. A opera??o se repetiu umas 4 ou cinco vezes e a guarda j? passava dos 45 mm de largura, mais que suficiente para o
posterior desbaste e ajuste.

Passei ent?o a moldar o formato da l?mina e os ?ngulos do vazado dos futuros
gumes.

Finalizei fazendo o formato da ponta e cortando o excesso da barra que havia sido
inicialmente soldada a uma cabo para facilitar o forjamento j? que sempre que poss?vel
evito o uso das tenazes para segurar as pe?as a serem forjadas pois a tenaz cansa mais a
m?o que um bom e firme cabo soldado.

Alinhei e recozi a l?mina para o posterior desbaste na lixadeira.

Pintei a l?mina forjada, transferi a ela as medidas de um molde feito conforme o
projeto inicial do amigo, agora cliente, e passei ao desbaste na lixadeira. Quanto mais a
l?mina se aproximava de seu formato final mais eu me encantava com suas curvas suaves e sua harmonia. Esta era realmente uma l?mina feita para uma adaga feminina!!
E poderia muito bem ter sido a l?mina original daquela fant?stica empunhadura que o cliente resgatou. Viajei como o marinheiro que fez este trabalho, vivi seus sentimentos de
saudade da esposa, ocupei-me como ele a fazer um trabalho sem pressa, para ocupar o
tempo e impregnar o metal de emo??es.

A l?mina foi desbastada e lixada at? a grana 320. Temperei-a no ?leo, lixei
novamente, reven?, lixei novamente e descobri que estava trincada!!

Resolvi assim mesmo envelhec?-la com percloreto de ferro e enviar para an?lise do
Cliente e para testes com produtos de envelhecimento.

Documentei fotograficamente todas as etapas da constru??o.

O Cliente quebrou facilmente a l?mina na trinca e segundo sua acertada an?lise eu
havia superaquecido o metal no momento da t?mpera.

Analisando o seu diagn?stico vi que estava correto pois antes fazia a t?mpera
aquecendo a l?mina dentro de um tubo em uma forja ? carv?o, ambiente escuro que
permitia ver claramente a cor da mesma. Passei ent?o a aquecer a l?mina em uma forja ?
g?s que internamente fica muito brilhante ofuscando a visualiza??o da cor que indica a
correta temperatura.

Adotei ent?o a t?cnica de conferir o momento da t?mpera usando um im? j? que ao
atingir a temperatura ideal o a?o deixa de ser magn?tico e o resultado foi bom, n?o perdi
mais nenhuma l?mina durante o tratamento t?rmico.

Ap?s estar seguro de ter resolvido o problema da t?mpera resolvi fazer tr?s l?minas
iguais simultaneamente para observar meus procedimentos de desbaste e promover
corre??es onde necess?rio.

Como n?o tinha mais limas adequadas ao forjamento fiz s? uma forjada em 1095 e
as outras duas fiz por desbaste ? partir de uma barra chata de a?o 5160 com 5 mm de
espessura e duas polegadas de largura.

Terminei as tr?s l?minas em um domingo, dia da crian?a, 12 de outubro de 2003.

Ap?s a correta t?mpera, desta vez sem trincas, e o triplo revenimento envelheci as
l?minas e as enviei ao Cliente. Sabia que apenas uma delas estava muito pr?ximo das medidas especificadas por ele mas com tr?s pe?as nas m?os ele poderia mudar de id?ia ou ter a certeza de ser aquela o melhor projeto para o seu cabo.

Adorei participar deste projeto, aprendi novos potenciais para o forjamento,
aprimorei minhas t?cnicas de tratamento t?rmico e de desbaste. Fiz uma bela viagem no
tempo.

S? tenho a agradecer a oportunidade que o convite do amigo e cliente me
proporcionou. Com certeza daqui para a frente vou olhar os antiqu?rios com outros olhos,
quantos ?T?neis do Tempo? n?o ter?o suas portas de entrada nas mesas e prateleiras destas feiras e lojas?

Marcos Cabete
Outubro de 2003

Barth
01-19-2010, 11:16 AM
Me deixou babando!Agora,cade as fotos???
Abra?o!

LCASERAPIAO
01-19-2010, 12:56 PM
Pois ? Barth... Igual a mim e queria ver as fotos pra ver se aprendo a fazer tbm.

Obrigado Cabete!!!

Mas p?e as fotos n? homi????

cabete
01-19-2010, 03:57 PM
Prezados,
Este texto ? de 2003 como devem ter observado. Ser? que colocar as fotos n?o estragaria a imagina??o? Sem fotos cada um pode viajar ? vontade!!

Ferrari
01-19-2010, 04:36 PM
Cabete: o Corn?lio Pires da cutelaria!

Uma sugest?o, pode escrever um livro sobre o tema, pois o feeling pra coisa vc tem....e melhor que muuuita gente!

Andrey
01-19-2010, 08:40 PM
Li tudo na maior empolga??o e tamb?m fui seco achando que encontraria as fotos no fim.

Concordo com o Ferrari, que talento pra escrever Cabete! Voto em voc? pra novo rep?rter da revista magnum, j? ganhou, j? ganhou!

Edimar
01-20-2010, 05:24 AM
Isso nada mais ? do que um lindo poema descritivo!
Parab?ns Cabete.

Devanir
01-20-2010, 06:14 AM
Concordo com o Andrey e o Ferrari.
O Cabete tem bom tr?nsito com a caneta e o papel, tem facilidades para escrever.
Imagino que a pessoa para escrever sobre cutelaria tem que ter este perfil ( escrever bem / conhecimento t?cnico / imparcialidade).
Com certeza no Brasil tem v?rias pessoas com talentos de sobra para desempenhar este papel de "reporter" da cutelaria.

Que os talentos apare?am e que nossa hist?ria seja escrita de norte a sul.

Gerson
01-20-2010, 12:01 PM
Ent?o o problema da Magnum foi solucionado.
Cabete foi eleito por unanimidade como reporter especializado em cutelaria.
Mas as fotos ajudam a aprimorar a imagina??o.

cabete
01-21-2010, 06:31 AM
Agrade?o a todos pelas palavras de incentivo.
Quanto a escrever para a Magnum n?o ? algo que esteja em meus planos mesmo porque nunca fui convidado.
A Magnum tem uma equipe que possui compet?ncia e tamb?m possui uma vasta biblioteca como os pr?prios autores dos artigos ?s vezes citam.
S? falta entrar em sintonia com o mercado de cutelaria artesanal brasileiro e mostrar a realidade do mercado e n?o opini?es pessoais.

Certa vez quando a Marina nos convidou para expormos e forjarmos na FACILPA em Len?ois Paulista o p?blico, em sua maioria, n?o era adequado ao que est?vamos apresentando e se assustava com os pre?os das facas artesanais que muitas vezes era maior do que o sal?rio de quem perguntava. Quando leio os artigos da Magnum sobre Cutelaria Artesanal tenho esta impress?o, de que os artigos est?o sendo escritos para incentivar a cutelaria industrial, ou seja, tentam influenciar negativamente o p?blico leitor. Se ? pra ter esta linha editorial n?o vejo sentido em que a comunidade da Cutelaria Artesanal coloque anuncios neste ve?culo. Tem que ter sintonia. N?o d? pra colocar an?ncio de cigarro na revista do minist?rio da sa?de!!

E.M.REIS
01-21-2010, 09:59 PM
Boa Cabete, muito boa mesmo, este racioc?nio me p?e a pensar e expor o meu racioc?nio para os membros e com as respostas de todos buscar montar algo que seja us?vel e aplic?vel ao nosso meio.

N?o adianta este tipo de focagem, ? errado no nosso pa?s, temos uma cutelaria ainda no 'ber?o' e continua engatinhando.
Mesmo tendo alguns que se destacam com m?ritos incr?veis e merecidos.
Devemos ater que s?o m?ritos pr?prios, suados e insanamente perseguidos por quem acredita,custeia, honra e faz ver seu trabalho e talento mundo afora.

Sobre publica??es nacionais:
Este meio de enfoque, tipo industrial, ? usado onde o mercado j? est? consolidado e foi feito a duras penas, cresceu aos poucos.
N?o adianta tentarmos usar o mesmo enfoque aqui onde a cutelaria ainda est? em desenvolvimento, ? um fato.
Tivemos a pouco o exp. de uma revista que faliu, usando este tipo de racioc?nio.
Era bela e bem feita, com boas abordagens e bom conte?do, por?m custosa e com muitos entretantos , s? funcionaria bem para o mercado americano ou um que j? estivesse estabelecido, educado e ?vido!

Eu (? minha opini?o) faria diferente, reduziria custos no tipo de papel e impress?o, usaria o preto e branco, que mal tem, a poucos anos atr?s a revista Blade usava este recurso. A nossa nacional revista Magnum usou tamb?m, menos custo de produ??o ? lucro para fazer a edi??o do n?mero seguinte, ? uma luta di?ria, at? conseguir o ponto de equil?brio.
Come?aria com uma coisa bem simples, bem pensada ao nosso mercado.
Cresceria aos poucos, n?o buscaria j? ser grande, imitando, ? um erro, e o resultado ? conhecido.
Usaria o conceito do simples e com bom conte?do, buscando bons distribuidores, pedindo para apostarem na id?ia n?o buscando um lucro imediato, e sim um meio a meio, uma aposta, que ? de longo prazo.
Acredito que aos poucos (m?nimo de 2 anos) a id?ia e o projeto tomariam o seu rumo e formariam mercado e seria sucesso! ? minha opini?o.

Agora Cabete, se eu tivesse tal editorial, tu teria uma p?gina e meia bem choraaada!
Cabete vai escrever e montar contos assim na PQP....... (ponta que punciona) !!!
Vamos falar mais a respeito, tenho id?ias e ?care?o? de outras, vamos formar uma nova forma de mostrar a cutelaria Brasileira!
Grande abra?o a todos.

cabete
01-22-2010, 07:17 AM
Edinho,
Obrigado pelas suas generosas palavras.
Quanto ? publica??o de cutelaria concordo com voc? que o que mais importa no in?cio e talvez at? mesmo no meio e final seja o conte?do ficando a qualidade do papel e outros detalhes para um n?vel secund?rio.
Com o avan?ar da publica??o pode-se pensar em uma pagina ou duas coloridas e at? em papel especial para aquelas fotos em que os detalhes coloridos sejam muito importantes de serem divulgados.
O duro de se fazer este tipo de publica??o ? dar o start, montar equipe, acertar detalhes de impress?o e distribui??o, acertar detalhes legais, capital e tudo o mais.
? mais ou menos como arrumar a oficina, o dif?cil ? come?ar mas depois que se come?a a coisa anima e ganha corpo.
Estou com um livro de causos prontinho ? uns dois anos, com registro na biblioteca nacional e tudo o mais mas ainda n?o tive coragem de publicar, ?s vezes at? tive o dinheiro mas sempre pensava na dificuldade de distribuir pois n?o quero virar vendedor de livro de porta em porta ent?o acabo desistindo. Agora j? penso em juntar uma grana e fazer s? uns 200 livros a fundo perdido, assim dou o livro pros amigos e algumas bibliotecas e pronto, encerro o assunto.
Uma outra id?ia a ser discutida ? a de se fazer uma revista eletr?nica, ter um site que pode talvez ser um apendice do site da SBC ou n?o e atrav?s de uma assinatura paga ou n?o abrir-se o acesso ao site. Se a id?ia for de captar recursos para partir pra m?dia impressa este site pode ter a senha vendida n?mero a n?mero, ou seja, vende-se a senha de acesso para um n?mero da revista e muda-se a senha pro outro n?mero que ter? uma nova senha comercializada. ? claro que alguns usar?o a senha pra v?rias pessoas mas isto tamb?m acontece com a revista em papel que acaba sendo lida por v?rias pessoas.
S?o id?ias a serem debatidas...