View Full Version : Dúvida técnica quanto a têmpera de aços


paulorocha
03-02-2009, 08:03 AM
Olá amigos



Estou com uma dúvida um tanto quanto complexa...

Pode uma peça de aço temperado "endurecer" com o passar do tempo, sem que haja um novo tratamento térmico e sem que sofra um processo de encruamento?

Mais especificamente: uma mola pode apresentar uma menor flexibilidade, aumentando a sua "força", com o passar do tempo?

Sempre achei que a resposta a estas perguntas seria não, mas estou com um problema em que tudo leva a crer que isto ocorreu.

Alguém já presenciou algo assim, e/ou saberia como isto poderia ser revertido? Um novo tratamento térmico está fora de cogitação... A peça tem dimensões milimétricas...


Agradeço qualquer ajuda



Um abraço

Ferrari
03-02-2009, 08:21 AM
Paulo, molas que trabalham muito com o tempo tendem a "cansar".

É o caso por exemplo das molas de automóveis, que tem que ser trocadas de vez em quando, pois vão perdendo a eficiência. Eu nunca vi uma mola ficar mais dura, mas sim perder parte de sua elasticidade, devido ao intenso trabalho.

Nos fuzis, no caso o FAL, tem várias molas de pequenas dimensões que se "cansam" com o tempo. Essas molas precisam ser trocadas, pois podem ocorrer falhas de mecanismo. Existem até calibradores para isso.

paulorocha
03-02-2009, 08:53 AM
Exatamente, é o que eu sempre achei, e o que o bom senso mostra. :D

Estou analizando outras possibilidades que não tenham a ver com a dureza da mola.

Eu só perguntei porque era uma possibilidade, improvável, quase impossível, mais ainda assim uma possibilidade.


Um abraço

Hoffmann
03-02-2009, 10:12 AM
Segundo o professor Daniel Rosa/Metalurgia/UnB, em conversas passadas ele me havia dito que é justamente o contrário: com o tempo, mas muito tempo mesmo, a tendência do aço temperado é voltar ao natural, ou seja, perder as características conferidas pela têmpera.

emilcio
03-02-2009, 10:25 AM
Devemos lembrar que a martensíta é "metaestável", e com o tempo, mas muito tempo mesmo, ela desaparece voltando o material à suas caracteristicas originais, mas coisa de 1o mil anos. Envelhecimento pode ser simulado em laboratório, e em algum aço inox pode ter aumento de dureza por precipitação, o fenomeno que o Ferrari fala é fadiga, e qualquer material submetido à esforço ciclíco está sujeito. Lembrem-se que o Titanic era projetado para suportar choques com Iceberg, à temperatura ambiente, mas esqueceram de usar um aço que suportasse as baixas temperaturas do mar do norte, daí...

cabete
03-02-2009, 12:07 PM
Tinha uma perua Ipanema cuja frição ficou duríssima para ser acionada. Pensei no cabo e troquei-o. A frição continuou dura.Desmontamos e o "chapéu chinês" que é aquela mola em formato de chapéu havia endurecido.
Como isto aconteceu? Imagino que se houve aquecimento o mesmo iria revenir a mola amolecendo-a. O outro caso seria a fadiga que a levaria a amolecer e até quebrar mas endurecer?
Também não achei explicação e tem um monte de senhores velhinhos buscando a resposta sobre como a peça fica dura depois de velha!! :rolleyes:

cabete
03-02-2009, 12:10 PM
Poderia este trabalho mecânico repetitivo causar algum grau de encruamento? :help:

emilcio
03-02-2009, 12:15 PM
Na Ipanema, tudo poderia acontecer.

emilcio
03-02-2009, 12:33 PM
Vamos fazer uma coisa: Já lí alguns trabalhos, onde isso é relatado. mas não entendí o mecanismo. Vou então perguntar pra quem entende e depois posto com explicações plausíveis

Ferrari
03-02-2009, 12:53 PM
Existe uma fenômeno, encontrado principalmente em aço inox. Chama-se galling.

Aconteceu muito nas primeiras armas com todo mecanismo em inox. Depois de algum tempo de fricção, uma peça rouba material de outra no mesmo aço e passa a arranhá-lo, criando uma superfície dura. Isso foi solucionado usando no mecanismo aços de diferentes ligas.

emilcio
03-02-2009, 01:00 PM
Já perguntei. O que me responderam foi que a tendência é amolecer, mas se este material for colocado em contacto com calor, tipo aquece , esfria, aquece, esfria, podererá precipitar carbonetos que endurecerão o material, isso é comum em aços ligados. Me falaram um monte de coisa complicada que não me atrevo a repetir.

paulorocha
03-02-2009, 01:19 PM
Bom, para dar mais detalhes sobre o ocorrido...

Eu acabei de restaurar um relógio, como coloquei em outro tópico. Só que ele está adiantando "horrores", coisa de quase 1 hora por dia, quando o aceitável seriam apenas alguns segundos.

Para um relógio adiantar, a mola espiral, também conhecida como "cabelo" deve trabalhar numa velocidade acima da normal. Isto se dá de duas maneiras: com a mola mais curta ou mais dura. Como não é o caso de mola curta, já que a mesma é a original de fábrica, restaria a opção de mola mais dura, o que me parece um contra-senso. Embora o caso do Cabete mostre um acontecimento semelhante (ainda que inexplicado).

Estou trabalhando também com outras hipóteses, inclusive de magnetização das peças metálicas da máquina do relógio, que como são muito pequenas podem sofrer um grande influência de campos magnéticos.

Por enquanto, é mistério...

cabete
03-02-2009, 02:01 PM
Dizem que relógio que atrasa não adianta... e relógio que adianta, adianta?:rockon:

paulorocha
03-02-2009, 02:37 PM
Dizem que relógio que atrasa não adianta... e relógio que adianta, adianta?:rockon:


Pior que pra arrumar, é preferível o relógio que atrasa, 99% das vezes é só limpar que volta ao normal... Mas quando o trem começa a adiantar, é encrenca... :punchself

Hoffmann
03-02-2009, 03:08 PM
Não vejo dificuldade nenhuma....
Forja logo outra mola e tempera a danada!!!!....
:)

paulorocha
03-03-2009, 05:00 AM
Não vejo dificuldade nenhuma....
Forja logo outra mola e tempera a danada!!!!....
:)

Posso usar o teu martelete?

:D :D :D

emilcio
03-03-2009, 10:10 AM
Sei que talvez não interesse mais, mas acho que achei a solução para o problema.

Quem possue o Livro: "Aços e ligas especiais", consultem na página 126,(livro novo), ou no índice: "Tratamentos térmicos - Fragilidade do revenido.
Vou tentar transcrever.
..." para os aços carbonos e baixa liga, o aumento da temperatura de revenimento até 200oC provoca um aumento da ductilidade. Entretanto, se o aço for revenido entre 260 oC e 315oC , este apresentará uma menor resistência ao choque do que se fosse revenido a 150oC, ou seja, entre 260 e 315 oC ocorre fragilização. Outra faixa que ocorre fragilização é entre 450oC e 600oC para aços com níquel e cromo....................aços que necessitem ser tratados nessas faixas devem receber adição de molibdênio ou silício"......
Observem que o 5160 é considerado baixa liga. Então muito cuidado com essas faixas de temperatura, onde ocorre fragilização da martensíta revenida.

paulorocha
03-03-2009, 11:04 AM
Com certeza que interessa Emílcio! Informação nunca é demais e não ocupa espaço.

Obrigado pela contribuição.