View Full Version : Questões sobre Metalurgia


drwong
02-13-2004, 09:51 AM
Bem, não querendo enxer o saco, mas já enxendo...
Abri este tópico pq creio que muitos novatos como eu não possuem qualquer informação sobre as classificações dos metais utilizados, peculiaridades. Enfim, acho que está no melhor interesse do forum que é justamente trocar informações (sem falar que fica mais organizadim :) ).

Pois bem! lá vai a dúvida!

Eu vejo vários números que classificam os diferentes tipos de aço. No caso do 5160 eu sei que o 51 é 51% de carbono. Mas e o 60?

Outra, existe algum modo artesanal de mudar as características do aço? tipo, reduzir ou aumentar seu percentual de carbono? se sim, como?

O que na propriedade do metal determina sua maleabilidade, resistência, flexibilidade e "afiabilidade"? (não sei o nome próprio para o termo hehe, desculpem o neologismo, mas quero dizer, a capacidade para por um fio mais cortante).

Como o carbono influencia no ponto de fusão do aço? quanto maior o percentual de carbono, maior a temperatura pra o ponto de fusão? Ou isso não tem influencia? Existe algum produto que ajude no processo, digo que acelere o processo de fusão de metal?

Por hora é só, Obrigado pela paciencia :)

Ferrari
02-13-2004, 10:18 AM
Dwrong, vejo que vc tem muitas dúvidas sobre metalurgia.
Inicialmente aconselho vc a procura uma literatura espacializada. Existem vários livros sobre metalurgia que podem elucidar essas suas dúvidas.

Quem sabe muito sobre metalurgia é o Rodrigo Sfreddo e o Luciano Dornelles. Talvez eles possam te indicar uma literatura para vc atualizar seus conhecimentos.

Por hora vamos às suas peguntas:

a primeira foi espondida em seu outro tópico.

a segunda: sim existe, vc pode fazer por exemplo uma cementação, com um produto específico pra isto. Mas sinceramente não vejo vantagem nisto. Se vc acha que o aço tem pouco carbono e pode gerar uma dureza insuficiente, mude o aço! Existem mais de 100 aços disponíveis para utilização na cutelaria e a cada ano aparecem mais. O que mais influencia é o correto tratamento térmico, este sim dita a dureza e a resistência da lâmina.

a terceira: não é só a porcentagem de carbono que dita a dureza do aço, tem q verificar os outros metais na liga como o Vanádio, Manganês, Cromo, etc. Um aço pode ter baixa procentagem de carbono, mas se tiver outros elementos na liga que ajudam na formação de carbonetos, ele terá outras características.

4ª: nós cuteleiros não lidamos com fusão, mas sim, a quantidade de carbono influencia no ponto de fusão. As temperaturas de forjamento ficam abaixo do ponto de fusão, onde o metal torna-se líquido.

BrB
02-13-2004, 11:22 AM
O melhor livro em português é o do Chiaverini, não lebro exatamente o título mas é algo do tipo, aços e ferros fundidos, vou ver a minha cópia em casa e depois coloco aqui. Se você for a qualquer universidade que se apresente e que tenha um curso de engenharia mecânica, eles precisam deste livro. É literatura básica nacional em metalurgia e a base da disciplina de engenharia de materiais que fala de metais ferrosos.

rsfjr
02-15-2004, 06:09 AM
Isso te ajudará, um pouco:
Os dois primeiros números indicam o tipo do aço; os últimos, que podem ser de 2 a 3 algarismos, indicam a porcentagem do carbono:

Séries:
1XXX -> Aço carbono "puro".
13XX -> Aço manganês.
2XXX -> Aços-liga de níquel.
23XX -> Aços-liga de níquel, com 3% a 3,5% de níquel.
25XX -> Aços-liga de níquel, com 5% de níquel.
3XXX -> Aços níquel-cromo.
4XXX -> Aços molibdênio.
40XX -> Aços cabono-molibdênio.
41XX -> Aços cromo-molibdênio.
43XX -> Aços cromo-molibdênio-níquel.
46XX -> Aços molibdênio-níquel.
48XX -> Aços molibdênio-níquel.
5XXX -> Aços-liga de cromo.
51XX -> Aços-liga com baixo teor de cromo.
52XX -> Aços-liga com médio teor de cromo.
53XX -> Aços-liga com alto teor de cromo.
6XXX -> Aços-liga de cromo-vanádio.
86XX -> Aços-liga de níquel-cromo-vanádio.
87XX -> Aços-liga de níquel-cromo-vanádio.
92XX -> Aços-liga de manganês-silício.

Agora aos exemplos:
a) Aço-carbono, com 0,45% de carbono = 1045.
b) Aço 5160 = Aço com baixo teor de cromo, com 0,60% de carbono.
c) Aço 1020 = Aço-carbono, com 0,20% de carbono.
d) Aço-liga com médio teor de cromo, e com aproximadamente 1% de carbono = 52100.
e) Aço-carbono com 1% de carbono = 10100.
f) Aço cromo-molibdênio com 1,3% de carbono = 41130 (esse fui eu quem inventou, mas a numeclatura é correta).

Espero que isso tenha ajudado, lembrando que os dois primeiros algarismos, sempre indicam o tipo do aço; se o aço possuir mais que 0,99% de carbono, aumente um algarismo.

R.Vilar
02-18-2004, 07:30 PM
Olá,

Acho que suas dúvidas iniciais foram respondidas, mas só para dar um reforço coloco aqui o nome do livro que vale a pena ter , pois mais dúvidas aparecerão tenha certeza disto.
O nome do livro é : AÇOS E FERRROS FUNDIDOS
Autor: VICENTE CHIAVERINI.

Se tiver a oportunidade de adquirir um sera muito interessante.
abraços Vilar

fernando.4f
02-19-2004, 06:48 AM
Acredito que poderei ajudar nesta.

acesse :

http://www.anvilfire.com.br/manual/aco.zip

Publiquei neste link o último manual de aços (2003) da Gerdau, Disponível "free use" pela empresa, pode copiar sem ressalvas.

Existe todo um capítulo explicativo mostrando exemplos que tirarão estas dúvidas.

O Site está ainda em construção, mas em breve trará muito mais informação, pois estamos "comendo metalurgia e cutelaria com farinha", oxi! :D

Abraços a todos.

0]

drwong
02-19-2004, 11:16 AM
Duvida básica sobre aço inoxidável. O aço 52XX é considerado inoxidável? e se for o aço 52100 (ou mais) seria um bom metal para lâminas? uma vez que seria inoxidável (se for) e teria uma maior quantidade de carbono, tornando-o mais rígido.

Valeu pela atenção....

Em breve minha primeira faca sai ehehhe :)

BrB
02-19-2004, 12:10 PM
O 52100 é um aço excelente para cutelaria. Não é considerado um inoxidável embora tenha um desempenho melhor neste sentido do que a série 10XX ou 51XX. Quem pode lhe falar com mais detalhes técnicos é o Sfreddo ou o Vilar. Eles usam 52100 direto.

Ferrari
02-19-2004, 12:15 PM
Dwrong,

O 52100 não é um aço inox. Ele é um aço com 1,5 % de Cromo. Se me lembro bem, para um aço ser considerado inox ele tem q ter no mínimo 5% de Cromo livre na liga ou 14% de Cromo total.

O 52100 é um ótimo aço para lâminas. Tem uma boa dureza e é bom de trabalhar. Quando corretamente temperado é um Work Horse Steel, como dizem os gringos!

drwong
02-19-2004, 10:04 PM
No tutorial do ferrari ele fala que é necessário aquecer um pouco o óleo antes de utiliza-lo para dar a tempera. Mas no tutorial que peguei (que tem uma cópia em pdf na pagina www.drwong.kit.net ) , não fala nada. Bem, eu estou fabricando uma faca de modo muito rustico mesmo! tipo serra, lima, lixa e muito braço.

E justamente por isso usarei água para a tempera. Existe uma temperatura ideal aproximada da água? considerando que estou trabalhando com 5160 e 52100.

Obrigado mais uma vez amigos.

G.

BrB
02-20-2004, 06:29 AM
Não use água. Use óleo dísel com um pouco de óleo motor. A chance de dar alguma trinca é bem menor.

Ferrari
02-20-2004, 07:47 AM
drwong

Não use água para temperar 5160 ou 52100. Se a faca não quebrar, pode ocorrer fissuras. A água tem uma velocidade de resfriamento muito grande e estes aços não tem uma boa aceitação deste veículo de resfriamento.

Use óleo hidráulico, para caixas de transmissão automáticas, ou o OH HR 68. Se não tiver isto pode usar óleo de carro mesmo (SAE 30 ou 20W 40), tendo o cuidado de acrescentar 6% de Óleo Diesel.

O aquecimento do óleo ajuda a não ocorrer as fissuras anteriormente citadas.

BrB
02-20-2004, 08:59 AM
O Luciano usa diesel puro! Apenas diferenças.. :)

Ferrari
02-20-2004, 09:14 AM
Realmente, é gosto pessoal. Também depende da técnica que cada um usa.

Já vi vários tipos de veículos para resfriamento, água, ar soprado, óleo diesel, óleo de laranja, parafina.

Com o tempo o cuteleiro vai moldando o seu jeito de trabalhar, cada um na sua. Exemplo disto foi a queimada nos dedos que levei na oficina do Vilar. Puro costume...:D

drwong
02-20-2004, 10:20 AM
HEHEH ok ferrari! só que eu tenho horror a queimaduras heheheh

Segurança é minha regra numero 1 afinal eu amo por demais os meus dedinhos! :D

Mas sério, é necessário eu pré aquecer a água para fazer o resfriamento? se é, por quê? E existe alguma temperatura ideal?

Valeu!

PS.: disel não é inflamável?

drwong
02-20-2004, 10:23 AM
por favor ignorem o comentário anterior hehehe eu só havia lido a ultima mensagem! :)

Mas aproveitando o bonde... a água funciona bem com qual material?

BrB
02-20-2004, 10:26 AM
Diesel é inflamável, e sim, pega fogo quando você mergulha a peça para temperar.


O Sfreddo temperando a espada:
http://www.brazilianbladesmiths.com.br/swordpics/tempera2.jpg

Esquentar o meio de têmepera serve para reduzir a draticidade e o stress aplicado na peça, fazendo com que ela resfrie um pouco mais devagar evitando um choque térmico mais brusco. Se você não deseja usar diesel, use fluído de direção hidráulica ou agum óleo do tipo.

rsfjr
02-20-2004, 10:29 AM
Olá,
Quando a têmpera for em água não há necessidade de aquecê-la. Pois ao mesmo tempo em que a água troca de calor muito rápido, ela entra em ebulição muito rapidamente: Isto faz com que bolhas de apareçam na superfície da peça(enquanto está sendo resfriada), essas bolhas fazem com que a têmpera fique desigual.

Quanto ao tutorial do amigo Ferrari, ele diz para se aquecer o óleo para diminuir o choque térmico com a peça:
O aço atinge a dureza máxima com aproximadamente 0,60% de carbono, então o aço 5160 é avantajado. Mas como sua dureza está no ponto optimo é necessário tomar cuidados, pois ao mesmo tempo que ele é extremamente resistênte a choques, ele se torna muito sensível à têmpera(devido sua dureza e a pequena doze de cromo, que o torna mais duro).
O cromo quando está em pequenas quantidades, torna o aço mais duro.

-> O diesel é inflamável. :D

rsfjr
02-20-2004, 10:31 AM
Opa!!!, parece que tá todo mundo aqui, ao mesmo tempo!!!! :D :D :D

BrB
02-20-2004, 10:33 AM
Cara.. teóricamente a série 10XX é feita para têmepera em água, mas isso nunca é muito aconselhável, salvo raras excessões, pelo menos na têmepera para cutelaria. As excessões podem variar, uma que eu sei de cara é a têmpera em estilo japonês, mas não use água fria. A maioria do pessoal nos EUA fazendo espadas em estilo japonês tempera em água pouco abaixo do ponto de ebulição. Acho que tem gente melhor habilitada do que eu para comentar o assunto.. acho que tem até alguns engenheiros que frequentam o forum.

Mas no final das contas, faça as suas experiências e tire as suas próprias conclusões. Não faça da sua primeira faca um tesouro intocável... bote pra quebrar.

BrB
02-20-2004, 10:39 AM
Falando nisso você minimiza o efeito das bolhas agitando a peça no sentido do fio, como se você estivesse cortando a água (ou óleo) nunca lateralmente, pois facilita muito o empenamento.

rsfjr
02-20-2004, 10:45 AM
Falou o Jefferson-san!
Concordo com você e com o Ferrari!
Veículo temperante e modo de têmpera vai do gosto! :D

drwong
02-20-2004, 10:51 AM
Bolhas hein?

Hmmm... isso me dá uma idéia... e se eu utilizasse 2 containers de resfriamento? 1 para o choque imediato e outro para um resfriamento prolongado da peça?

O primeiro eu poderia usar água (sim eu estou resolvido a tentar com água hehehe) logo abaixo do ponto de ebulição, e no outro a água em uma temperatura mais baixa.

Hmmm... acaba de me ocorrer que talvez água corrente seja a resposta... alguém já fez o teste?

(sim tou cheio de pudor com minhas facas pq desbastar só usando a lima é trabalho de chinês! hehehe vou comprar um esmeril!!) :D

rsfjr
02-20-2004, 11:04 AM
Muitas pessoas fazem do jeito que você pensou:
Primeiro resfria-se em água e depois em óleo. E outras, o vice-versa.
Porém, você tem que possuir em mente que: A tempera se dá no primeiro choque térmico, quando faz o "tchhh".

Quanto à água corrente, também funciona.

BrB
02-20-2004, 11:21 AM
Cara.. se você está cheio de pudores com suas facas, use óleo.

Ricardo Lala
02-20-2004, 02:45 PM
O problema com a água é que é muito pouco viscosa, retira temperatura de forma muito rápida e desigual, pois se aquece muito rapidamente e altera o resfriamento onde ocorrer as bolhas de vapor, tente utilizar um óleo apropriado de base parafínica, se tiver condições, pois é o mais indicado, alto ponto de fulgor, baixa emissão de vapores incendiáveis e termicamente muito estável, existem no mercado em embalagens grandes
(200 l), mas talvez voce consiga uma pequena quantidade de amostra com um revendedor, não arrisque provocar um incendio, óleo queimado ainda queima bem, e como!

Ferrari
02-22-2004, 12:52 PM
Taí a palavra de um dos maiores entendidos no assunto, né Lala?

Aço temperável em água: W1 e W2 (o ‘W’ quer dizer water, água em inglês)

Em óleo: O1 ( o “O” quer dizer oil, óleo em inglês)

Em ar: A2 (o “A” que dizer air, ar em inglês)

Drwong, vou te contar uma história de quando comecei a fazer facas: depois de um ano aproximadamente que eu já fazia faquinhas de molas de fusca e Kombi, parti para um projeto embicioso, fazer uma Bowie de 10” a partir de uma mola de Jeep de ¼” de espessura. Cortei, desbastei no esmeril e na lima, lixei na MÃO por um mês inteiro!!, pronto! Fui para a têmpera, já havia tido bons resultados no óleo, mas resolvi temperar na água. Deixei ficar vermelho cereja, aquecendo legal, mergulhei na água...voltei somente com a parte do cabo, pois o resto, quebrado, estava no fundo do balde!

Lição aprendida: não se mexe em time que está ganhando. Faça sua primeira experiência conforme a maioria daqui está falando, pois assim vc não cometerá os mesmos erros que nós cometemos. A grande maioria que está aqui no fórum não teve mestre ou mesmo orientação, quase todos tiveram que ralar e quebrar a cabeça por pouca ou nenhuma informação, sendo que hoje este fórum e vários outros meios de comunicação podem ajudar quem está começando, mordomia esta que os mais velhos não tiveram.

drwong
02-22-2004, 07:36 PM
OK OK! Aprendida a lição!

Caro ferrari, seu alerta veio tarde demais para mim! (aos outros que me avisaram antes, podem falar "Mas eu te disse! não te disse?").

Testei fazer as 2 facas com a água. Bem, estes foram meus resultados:
a primeira faca, feita de 52100. Ela fez um maravilhoso Tchhhhh e para evitar bolhas eu movimentei a lamina no sentido do fio. Descobri algo facinante sobre hidrodinâmica: água corrente não corre uniformemente, resultado? a base ficou torta. É, não fiquei muito feliz, mas apesar de torto o temperamento foi bom, a lima não pegou.

Ai eu pensei, talvez se eu for mais cuidadoso com a 5160 tudo dê certo. Pois bem, desta vez tentei em um recipiente fechado (não água corrente). Resultado? o aço trincou. Eu não entendi nada! todos haviam me falado que o aço seria temperado de forma não uniforme. Mas nada sobre o aço trincar. Notei tbm que a tempera não saiu muito boa, a lima pega na base.

Em resumo, aprendi que a água requer habilidade para uma boa tempera (algo que sinceramente não tenho por ser principiante), aprendi que devo ouvir os mais experientes (tá, vcs me avisaram) e principalmente, aprendi que dar a tempera é a parte mais divertida de fazer a faca (pelo menos mais emocionante). Saldo total? Aprendi pra burro (da pior maneira, tá, eu sei).

Mas eis que restam alguns mistérios da física! Porque diabos o aço trincou apesar da faca ser leve? (15cm X 2,5cm X 2mm) O aço estava já com uma falha? e se estava, como eu posso detectar futuras falhas em materiais? A temperatura da água pode ter causado isto?

Muito obrigado a todos e é isso ai! de volta ao ferro e a lima...

... vivendo e aprendendo.

g.

rsfjr
02-22-2004, 09:21 PM
Justamente porque o aço não se temperou uniformemente a sua lâmina trincou->É só pensar o seguinte:
Enquanto várias partes se temperaram, várias não se temperaram muito bem, isso cria uma instabilidade na estrutura do aço, levando-o à rachadura(no caso do aço 5160).
Quanto ao empenamento: Quando a lâmina se empena, você pode aproveitar o calor residual para desempená-la, usando um pedaço de madeira/caibro duro para bater.

Ricardo Lala
02-23-2004, 06:38 AM
Olá,
O 1º problema é o seguinte, a mola de fusca era usada?, caso afirmativo deve ser levado em consideração que sofreu muita torção durante sua vida útil, até "quebrar" e ser descartada, certo, portanto ao temperá-la de novo quem surge..... as micro trincas de uma vida sob uma kombi ! pode se evitar isto usando molas sem uso, novas, ou o aço 5160 virgem.
E o 2º é que o 52100 é um aço de uma liga ligeiramente melhor, portanto deve ser aquecido a uma temperatura maior, se voce usou a mesma cor aos dois, pode ter excedido no 5160, e outro detalhe, se uma pequena seção da sua fina lâmina, 2mm se não me engano, se aqueceu um pouco mais que o resto, fica mais dura neste ponto, e se contrai diferente do resto, e entrão, trinca.
Sobre a dica do desempenamento, a tranformação do aço se dá durante alguns minutos, enquanto ele não atingir a temperatura ambiente, voce pode golpeá-lo com um martelo de madeira ou bronze para reduzir seu empenamento.
Boa sorte da próxima vez !http://www.usualsuspect.net/forums/images/smilies/crazy.gif

rsfjr
02-23-2004, 08:48 AM
E é por isso que o aço deve ser recozido antes de ser forjado e antes de ser temperado. Não se esquecendo de que o ideal é dar umas 3x normalizadas após cada 20~60 minutos de forjamento.

Ferrari
02-23-2004, 09:40 AM
Eu te disse! Eu te disse!

drwong
02-23-2004, 11:25 AM
RSFJR
Não entendi patafinas do que vc me acabou de medizer. Poderia ser mais claro? como assim 3x normalizada?
O que isto quer dizer? COmo é feito o processo? E onde posso encontrar óleo hidraulico para a tempera?

rsfjr
02-23-2004, 12:51 PM
A normalização é um processo que remove o estresses causado pelo aquecimento da lâmina e diminui o grão do aço.
Quanto maior o grão do aço, mais quebradiço o aço é.
A normalização consiste em aquecer a peça até a temperatura crítica(não magnética) que fica em torno dos 780~800°C, quase alaranjado; quando a peça estiver aquecida, retira-se a peça da forja e deixando-a resfriar até uns 350~400°C, quando o aço para de emitir luz própria.

Óleo hidráulico? Essa eu não sei... Tente procurar nas oficinas de gindastes, maquinarias hidráulicas em geral.
Será que óleo queimado não serve? É mais barato. :D .

drwong
02-23-2004, 01:35 PM
onde arranjo óleo queimado?

Ferrari
02-23-2004, 02:29 PM
Dica: não utilize óleo queimado. Ele possui muitas impurezas, pedaços de metal, sujeira, etc. Isto cria uma carepa muito difícil de se retirar.

O OH (oleo hidráulico) pode ser comprado por litros em qualquer posto de combustível (os decaixa de transmissão automáticas para veículos, de cor avermelhada) ou ainda pode ser comprado em baldes de 20 litros (óleo para sistemas hidráulicos, conhecido como HR 68).

rsfjr
02-23-2004, 04:30 PM
Falou o Ferrari!

:D

Ricardo Lala
02-24-2004, 04:22 PM
Ô Ferrari, não é querendo ser chato, mas eu conheco "Fluído hidraulico".... este tal óleo hidraulico eu desconheço...
Outra coisa que funciona bem é óleo de transformador, que se pode conseguir com quem conserta estes transformadores grandes, de poste, pois usa um óleo refrigerante muito resitente ao fogo, e limpo.

rsfjr
02-24-2004, 05:38 PM
Óleo Hidraulico e flúido hidraulico, no caso, são as mesmas coisas.
Óleo de trafo funciona, mas é cancerígeno.

Ricardo Lala
02-24-2004, 06:27 PM
Me desculpe caro colega, mas óleo é uma coisa, e Fluído, com acento no " i " é outra, com propriedades diferentes e algumas até adversas, e o óleo isolante de transformador que era cancerígeno foi proíbido e recolhido, mas pode ter sobrado algum por aí, então é aconselhável evitar esta opção, e, mais cancerígeno que o ar que se respira em São Paulo, não tem! He he he!

rsfjr
02-24-2004, 07:32 PM
Bem, fluído pode ser várias coisas:
a)Ar.
b)Gases perfeitos/ou não.
c)Água.
d)Óleo.
e)Veículos gelatinosos...
:D

Ferrari
02-25-2004, 12:39 PM
Ricardo, eu conheço pela nomenclatura, que é OH, de óleo hidráulico ou o nome comercial de HR 68. Ele é usado para sistemas hidráulicos. No meu caso eu conheço porque ele é usado para os motores hidráulicos dos ventiladores de arrefecimento dos Carros de combate M41. Cada sistema (são dois) vai 80 litros.

Todos aqui no quartel todos conhecem por OH, inclusive esta nomenclatura vem até nas notas fiscais. Mas acho que o termo fluído deve ser o mais indicado.

O óleo para transformadores que era cancerígeno chamava-se Ascarel.

drwong
02-25-2004, 04:06 PM
Hoje, visitando as cutelarias do centro do Rio de Janeiro, mais propriamente na Rua da Carioca, vi um Shuriken (heheh vale a pena levar isto para o outro thread sobre nippon-to) e ao perguntar sobre o metal utilizado, o vendedor me disse que era feita de aço cirúrgico.

Bem, um grande ponto de interrogação apareceu na minha cara hehehe, parece que é o mesmo aço utilizado para fazer bisturi. Estou pesquisando, mas até agora nada. Se alguém souber sua constituição, nomenclatura e que propriedades este tipo de aço pode oferecer a uma lâmina, por favor me informem :)

Até. (vamos comemorar quando este thread chegar a 100 mensagens huahuahu)

rsfjr
02-25-2004, 04:22 PM
Olá,
É provavelmente o aço inox 440C.
Porém isso não quer dizer nada, o aço inox, em minha concepção, nunca será melhor que os aços carbonos.
Voltando ao "isso não quer dizer nada": O shuriken pode ter sido feito com o melhor aço inox 440C, mas se o cuteleiro não souber tratá-lo, ou seja, utilizar o processo sub-zero e outros, o shuriken será tão mole quanto uma faca de aço 1020.

drwong
02-25-2004, 04:32 PM
Gostaria de entender melhor o seu ponto de vista.

O que lhe faz crer e/ou constatar que os aços inóx nunca serão superiores aos aços carbonos? Não existe nenhuma possibilidade de um aço inóx oferecer uma lâmina com resistência, fio e durabilidade de um aço carbono?

Estou sinceramente interessado.

fernando.4f
02-25-2004, 04:53 PM
Eu coloquei um link de um manual neste mesmo assunto lá no começo, vc teve a oportunidade de baixar e ler ? o Capitulo 7 paginas 19 até 29 fala sobre classificação (Martensilicos,Ferríticos, etc), caracteristicas (trabalho a frio, a quente,etc), fala sobre os elementos quimicos que dão maior dureza, maior usinabilidade, e assim por diante, mostram como são as tranformações das caracteristicas conforme a alteração quimica.

Uma coisa que aprendi é que quanto mais sobre quimica e metalurgia você entender melhor, pois assim poderá escolher a correta matéria prima para suas criações.

Vou repetir o link :

http://www.anvilfire.com.br/manual/aco.zip

Leia, acredito que será importante, para mim foi.
0]

rsfjr
02-25-2004, 06:00 PM
Bom, a primeira coisa é que eu sou muito tradicionalista nesse ponto, não gosto de aço inox.
Depois, é que para se realizar o tratamento térmico do aço inox é preciso aparelhagem especial, a primeira delas é o tanque de nitrogênio à aproximadamente -100°C. E a maioria do pessoal que forja lâminas em inox(nem mesmo a Tramontina) sabe tratar o aço inox devidamente, exceto os mestres-cuteleiros desse fórum.
E também uma das únicas vantagens do aço inox é que ele não enferruja com facilidade, o que pode ser evitado com facilidade em qualquer lâmina de aço carbono.
Mas a pior das coisas é, que, como o aço inox contém cromo, esse elemento não permite a alta formação de cristais martensílicos na têmpera, assim não é possível obter a linha de têmpera.

Ferrari
02-26-2004, 12:18 PM
Dr wong

Cada cuteleiroa tem seus aços preferidos. No caso do pessoal da forja, a escolha fatalmente recai sobre aços carbono, fáceis de forjar e temperar como o 5160, 52100, O1, etc.

Já o pessoal que trabalha com desbaste, que é o caso por exemplo do Ricardo Lala, sua escolha será por aços inox como 440C, BG 42, S30V, etc.

Nos dois casos, os equipamentos e ferramentas são um pouco diferentes. No caso dos aços carbono, sua têmpera é 'facil de ser feita nas mais simples das forjas, enquanto os inox se não tiver um forno com controle rígido de temperatura, o serviço não vai sair bom.

Quanto ao desempenho acho que os dois aços tem seus prós e contras: os carbono tem bons fios e fáceis de temperar, mas enferrujam com facilidade, enquanto os inox não enferrujam, mas são difíceis de temperar. Além disso, existem inox de desempenho de corte excepcionais, como por exemplo o S30V da Crucible, primeiro aço especialmente desenvolvido para cutelaria a ser produzido em larga escala.

Aliás, aço cirúrgico é o velho conhecido 420.

BrB
02-26-2004, 12:32 PM
a primeira delas é o tanque de nitrogênio à aproximadamente -100°C.

Conheço gente aqui em Floripa que faz um tratamento sub-zero decente com gelo seco. Na realidade o problema inox X Carbono é mais uma questão de preferência do artesão e do cliente e de função da peça. Quanto a forjar inox essa é uma outra discussão que já deu pano pra muita muita manga, mas parece que são muito poucos aqueles que escolhem as ligas de inox para forjamento. Não vamos confundir conformação com o forjamento que fazemos na cutelaria. Uma faca tramontina é aquecida até uma temperatura (que não sei exatamente, o Callega deve saber melhor) e depois desce a prensa fazendo o forjamento de uma vez só. O stress que colocamos em uma peça com o nosso forjamento tradicional é muito maior, a perda de carbono também, e todos os outros efeitos de vários aquecimentos acima e abaixo da temperatura de austenitização.

rsfjr
02-26-2004, 01:17 PM
Exatamente,
É por isso que as facas da Tramontina são boas para cortar ar . Justamente porquê elas não passam por um processo de forjamento e tratamento térmico descente, quanto mais se malha o aço, melhor ele fica(claro, se souber tratar térmicamente bem), é como sovar o pão, quanto menos se sova o pão pior fica seu sabor/consistência.

Concordo plenamente com você, no aspecto de que o forjamento manual impõe muito mais estresse à lâmina, porém um bom cuteleiro(se que já sabes disso, só para reforçar) não só sabe modelar bem o aço como sabe tratá-lo termicamente. E é isso que torna as lâminas artesanais "100x" melhores que as lâminas industrializadas:
Forjamento e tratamento térmico bom.

E se não me ingano, o gelo seco fica +- à 80°C negativos, já que é o gás carbônico sólido.

drwong
02-26-2004, 07:23 PM
Parem o Mundo que eu quero descer!

Teóricamente um choque térmico muito intenso não trinca o metal?? Como assim dar a têmpera a -100 graus? (ou -80 no caso do gelo seco) isso não destruiria o lindo trabalho feito em aço inox?

Mais uma pergunta. Velasco, como seu amigo consegue temperar por igual uma lâmina com gelo? já pensei em várias maneiras, mas todas elas deixam algo em aberto para uma tempera desigual. Não que eu vá me atrever a fazer isso agora, heheh é que fiquei muito curioso mesmo (devido a minha experiÊncia recente com tempera hahah)

Aliás, Viva mensagem número 50!!! hehehehe quem sabe não chegamos a 100? :D Parabéns a todos! e obrigado por me aturarem hehehe .

callega
02-26-2004, 08:33 PM
Qto a temperatura dfe conformacao no martelo, acho que era uns 900 e alguma coisa. Na epoca meu interesse era por robotica, cnc, clp, e diabos parecidos. Mas lembro da cor vermelho alaranjado das pecas de inox qdo saim do forno e um manipulador Pick and Place as apanhava. Reformei este manipulador. Ele apanhava da fporja eletrica alimentada por esteira, colocava no martelo de impacto, levava ate uma mesa rotatria que fazia a tempera, em continuo...
Qto ao zelo seco, basta clocar na acetona... Tem uma sequencia certa, nao sei qual vai vai primeiro.. Acho que o gelo na acetona.. Sei que se inverter as bolas, detona... Portanto estudem antes..
Qqer liquido com ponto de solidificacao abaixo do zelo seco funciona.. Oviamente a isotermia nao é das melhores, mas dizem que funciona..
Nao tenho habilidade e equipamento pra trabalhar com inox.. È sltamente temperamental..

Ricardo Lala
02-27-2004, 06:46 AM
Olá colegas ( e Calega tb...)
Bem, em primeiro lugar, o choque térmico de uma peça da temperatura ambiente para os 100ºC negativos representa uma variação de +- 125ºC, e na tempera, acima dos 1000ºC, em óleo a 150ºC, temos uma variação de 850ºC, então ele suporta, o que pode acontacer é um ligeiro empenamento, mas isto pode ser contornado fazendo um prévio alivio de tensões na peça antes de iniciar o congelamento, no forno a 120ºC por uma hora.
E quanto ao que o Calega falou sobre a cor laranja do aço inox, vale a pena lembrar que as cores do inox são diferente dos aços convencionais, dado ao seu alto teor de ligas, o que varia muito de um aço para outro.
E fica aqui também registrada uma observação, nós estamos acostumados com a industria cuteleira nacional, que produz de acordo com as exigências do mercado local, ou seja qualquer coisa serve..., mas ao olharmos acima um pouco, veremos facas e canivetes industriais que se confundem e muitas superam as peças feitas à mão em termos de acabamento e design, e em qualidade dificilmente ficam atráz, então porque eles preferem as artesanais, simples, porque são artesanais!

BrB
02-27-2004, 06:58 AM
Mesmo na cutelaria industrial nacional você acha boas facas nas linhas de exportação, mas o custo é bem mais alto. A faca furreca padrão da Tramontina que você vê no supermercado a R$ 9,50 (ou o preço que vc's acham aí na sua região) atente a uma camada populacional que não está disposta ou não pode investir R$ 60 ou 70 em uma faca padrão exportação, e muito menos R$ 200 em uma faca custom. Uma pequena lei de marketing, se está no mercado a um bom tempo, é porque existe demanda. As facas ruins vendem.

Ricardo Lala
02-27-2004, 09:52 AM
Mas foi quase o que eu disse, não se pode jogar pérolas aos porcos... ou facas boas, he he he.
Eu citei a cutelaria americana, e posso dar um exemplo, um canivete Willian Henry, custa acima de 150 dólares, ou mais de 450 dos nossos iReais, assim é possível fazer uma cutelaria de alto padrão, ou não???!!!

BrB
02-27-2004, 10:42 AM
Eu estava concordando, e não retrucando Ricardo.

:D

callega
02-27-2004, 06:06 PM
Lala, na epoca que trabalhei na Tramontina, trabalhava numa divisao que produz panelas de fundo triplo, baixelas e talheres finos.. Algumas facas eram feitas pelo soldamento tig de tres pecas em inox. O cabo era oco. Um equipamento automatico unia as duas pecas do cabo e depois de polido, parecia macico..
Uma coisa é induvidavel, o Vlentin Tramontina iniciou fabricando canivetes com talas de chifre bovino no p orao de casa. O Ivo, vendia docinhos na estacao de trem de Carlos Baarbosa. Hoje, estes homens nao se comparam a qqer um por ai. Mto embora o Ivo seja muito mais que simples na maneira de tratar.. Mas grana, en o véio Randon tem tanta..
Se eu tivesse um futuro destes pela frente, talvez tbem faria facas daqueel tipo.
O nono Munhol fabrica facas que sao tortas, profundamente riscadas pelo esmeril, com marcas profundas do forjamento, pits profundos, cabos de cano de pvc e vende a menos de 10 pila. a faca grande.. E vende..
Quem paga 100, 200 pila por uma faca custom?? Qto mais 500, 1000...
Agora, qtos pagam 10 pila por uma faca?? Mtos..
Eu nao usaria uma faca minha no m eu balde de pesca.. Com certeza seria roubada..Agora, aquela mundial profissional, toda fina de tanto afiar, ninguem rouba. Talvez nao saibam que é uma das melhores facas de linha profissional. Se descobrirem que é feita com aco alemao, entao... Ja era..
Agora, ja vi mto cara pagar mais de 200 e ate 500 por Solingen fabricada no uruguai ou no brasil..
Tem doido pra tudo..
mercado existe pra qqer M ou coisa ótima.. Basta descobrir a forma de cativar o cliente..
:smokin

BrB
02-27-2004, 06:24 PM
Excelente resposta Callega... humorada e com contexto.

drwong
02-27-2004, 07:00 PM
Hmmm.... será que consigo vender minha faca torta? ahuahuahu
vou fazer uma linha delas! :) uhahuahuahu

É tudo Marketing no mundo de hoje! ninguém merece.

Ricardo Lala
02-28-2004, 07:00 AM
Originally posted by BrB
Eu estava concordando, e não retrucando Ricardo.

:D
Olá Jeff, me desculpe se pareci grosseiro, eu também estou concordando contigo !
Mas é isso mesmo, além de ser uma condição financeira da maioria, foi o que o Jean falou, tem gente que paga 500 mangos numa Solingen falsa, ou bem mais numa Sheffield, e depois que descobre, fica quieto para não assumir que foi enganado e parecer idiota, não é verdade!!!??? Se o público quer M., que tenha sua M., mas o que acontece no mundo civilizado e capitalista, tem dinheiro sobrando, bom gosto e, como disse um cliente meu, eu já tenho 5 facas de 100, agora eu quero uma de 500, e é assim, se eu quero e posso, eu pago! Porque qualquer faca corta, ás vezes uma feia, mal acabada corta mais ainda, e ninguem a rouba, he he he he ...

BrB
02-28-2004, 10:32 AM
Acho que é mais ou menos por aí...

Mudando o rumo da prosa... como tem gente que foi enganada e, em vez de botar a boca no mundo e parar o sacana que vendeu as facas, fica quieto e não fala nada.

rsfjr
02-28-2004, 10:39 AM
É... Jefferson,
Tem muita gente(a maioria) conformista por aí!
É por isso que o nosso país não cresce!

R.Sfreddo
02-28-2004, 02:03 PM
Olá amigos,estive um tempo sem dar uma olhada no fórun e só agora conseguí ler todo esse tópico. E embora gostasse de dar minha opinião sobre muitas coisas que foram ditas,não posso entrar assim de última hora e rediscutir todos os assuntos. Mas gostaria de fazer uma observação sobre algo que lí,que acho que merece ser comentado a fim de evitar mal-entendidos. O rfsjr disse que o aço fica melhor quanto mais se forja,chegando a fazer uma comparação com massa de pão,e na verdade é exatamente o oposto! O forjamento é um processo de conformação,usado para dar forma somente. Ele não melhora em nada as características do aço,pelo contrário. Por se tratar de um processo traumático,deve ser executado da melhor forma e no menor tempo possível. Pois quanto mais vêzes se aquece o aço,mais ele sofre descarbonetação,extress,possibilidade de trincas internas e/ou superficiais,etc.. Vou dar um exemplo de como isso pode afetar uma faca,que é sobre o que tratamos aquí: Quando começamos a forjar as integrais,tempos atrás,as facas eram forjadas totalmente à mão,e eram faitas com empunhadura do tipo full tang. Levávamos cerca de três horas para conformar uma barra redonda de uma polegada em uma faca integral. O tratamento térmico era feito no forno elétrico de precisão,como é até hoje. Naquela época,o revenido era feito à 180-190 graus,para uma dureza de cerca de 60 pontos. Hoje as facas são forjadas com auxílio do martelete e da prensa,e são feitas com espiga ao invés de chassi integral. Isso diminuiu o tempo de forjamento para cerca de 45 minutos,e hoje para baixar a dureza para 60 pontos,o revenimento tem que ser feito à 300 graus! Isso mostra de forma muito clara a quantidade de carbono que se perde com um forjamento demorado. E quando se perde carbono se obtém menos martensita,e com isso diminui a resistência ao desgaste,ou seja,a faca vai ter um rendimento menor. Essa idéia de que o forjamento melhora a qualidade do aço vem de um tempo em que o aço continha teores de impurezas muito altos,por isso precisava ser "refinado"através do forjamento,pois esse expulsa as impurezas para fora. Mas isso era na idade média. Achei importante fazer essa observação pois muitas idéias que se tem sobre forjamento e tratamento térmico são baseadas em antigas crendices ou idéias românticas,não tendo nenhum fundamento científico. Volto a frizar que é muito melhor ir atrás de bons livros sobre metalurgia como o já citado"ferros e aços fundidos" do que ficar colhendo estórias aquí e acolá. Não desejo criticar ninguém,e espero que ninguém fique ofendido pelos meus comentários,mas é minha obrigacão como cuteleiro e como diretor técnico da SBC exclarecer dúvidas e desfazer mitos sobre cutelaria,pois vivemos cercados de ambos. Um grande abraço a todos.

rsfjr
02-28-2004, 02:17 PM
Hmmm, está certo... Mas que tipo de forja que vocês usavam?

R.Sfreddo
02-28-2004, 02:57 PM
Forja à gás,com atmosfera redutora para diminuir a descarbonetacão.

JosuéH.M.Araujo
02-28-2004, 04:04 PM
Sem Querer ofender ninguem, Mas é bom ler bem e oservar os gráficos e figuras do livro sitado. Aços e Ferros fundidos do Engenheiro Vicente Chiaverini. Principalmente no que se refere a
estrutura do aço, na plasticidade do aço cada temperatura, a as mudanças provocadas a cada tratamento térmico. normalisação, coalecimento, revemimento , têmpera etc.

Caro Sfredo espero que não se aborreça. Não é minha inteção provocar.
Quanto a Atmosfera redutora, asolutamente certo.
Aquele fogo Amarelo vivo evita a formação de muita carepa, ou seja, diminui perdas por oxidação.
Nas forjas a carvão tambem é possivel coceguir o mesmo efeito com a regulagem do ar e obsevando-se como se forma chama da forja e como queima o carvão.

BrB
02-28-2004, 04:15 PM
Josué, o Sfreddo escrevu:

Forja à gás,com atmosfera redutora para diminuir a descarbonetacão.

Não falou da forja a carvão.. só deixou claro que a forja que usa tem meios de controle para minimizar a descarbonetação pelo controle da mistura de oxigênio, e mesmo assim teve os resultados que teve. Acho que nesse caso não houve nenhuma confusão.

rsfjr
02-28-2004, 04:20 PM
R.Sfreddo,
Eu, o Jefferson Velasco e muitas outras pessoas, no fórum da Sotai, já entraram em debate sobre a descarbonetação em forjas à carvão e à gás.
Eu sempre digo que em forjas à carvão a perda é menor que em forjas à gás...
Mas em qualquer caso, é possível adicionar e/ou aumentar a quantidade de elementos no aço, como o silício, boro, cálcio, malfeitores(fósforo e enxofre).
O carbono é controlável também, o único que você pode diminuir ou acrescentar apenas pelo processo de enriquecimento ou empobrecimento na forja(é claro, sem precisão).

R.Sfreddo
02-28-2004, 04:24 PM
Estou tentando esclarecer essa história à horas,já escreví um baita texto falando sobre isso duas vêzes,mas toda hora cai a minha linha e eu não conseguí postar.

R.Sfreddo
02-28-2004, 04:29 PM
O limite é de cerca de 0.35 de carbono,depois disso o aço não aceitará mais carbono externo por esses meios. Portanto esse tipo de carbonetação não se aplica para aços utilizados na cutelaria.

R.Sfreddo
02-28-2004, 04:35 PM
A descarbonetação ocorre quando o aço é aqucido e o carbono fica livre para se ligar com o oxigênio e formar óxido de ferro. Isso acontece cada vêz que retiramos o aço da forja e ele entra em contato com a atmosfera. O que podemos fazer para retardar o processo é trabalhar com atmosfera redutora e forjar o mais rápido possível,diminuindo o número de aquecimentos. Isso pode ser feito nos dois tipos de forja,mas na de carvão o número de variáveis é muito maior.

callega
02-29-2004, 05:59 AM
É isso ai Sfreddo.. Teu computador ficou gago??
Lembro que tu eras um defensor ferrenho do forjamento ate a forma final..
Mas nosso conhecimento nao é estanque, é relativo ao momento.
|Lembro de eu ja ter defendido o desbaste, depois o forjamento.. Nossa bandeira de luta muda conforme nosso conhecimento evolui.. Burrice seria continuar defendendo uma idéia que defendiamos, por mera teimosia..
é da natureza das grandes mentes cientificas, trocarem de idéia.. Nao, nao é ser voluvel nao, é estar com a cabeca aberta para reparar que a vida mostra algo diferente do que acreditamos. É assimqeu evoluimos..
Acreditavamos que o mundo era plano.. Ninguem queria navegar ate a encosta do mundo pra nao cair no buraco.. Algum dia, algum louco resolveu desafiar.. Ai surgiu a america. Ate onde sei, o povo Basco (ou Vasco) costumava frequentar a america muito antes de Colombo. Dizem que os egipcios faziam isso a milhares de anos.. Sera que eles nao tiveram medo de cair no buraco??
Paradigmas.. Existem para serem quebrados.. É isso que nos faz evoluir.
Só uma pergunta, tu tentou fazer testes de corte e tenacidade entre uma lamina e outra?? Nao sei se é crendice ou nao, nao testei, mas o povo da regiao costuma falar que a faca forjada na marreta e a forjada no "maio" tem diferencas de performance.. Sera verdade??
Food for thought..

:smokin

rsfjr
02-29-2004, 07:08 AM
É verdade, Callega.
Sfreddo, estive pensando, talvez o processo de forjamento não se assemelhe com o sovamento do pão. Porém, é bem parecido, ainda acredito que quanto mais se forja, melhor fica o aço. É claro que precisa-se utilizar a temperaturas certas(acima de 700°C). Pois o aço não se fadiga tanto, já que ocorrem micro-fundições em seu interior.
É só pensar na Nippon-tô, mesmo as sem laminamento, seu forjamento durava dias, e em temperaturas extremas(+-1000°), e mesmo assim continuavam robustas e fortes.
Se usarmos as corretas técnicas para o forjamento, o aço não se fadigará e nem perderá tanto carbôno.
Tudo está no tratamento térmico e na temperatura de forjamento:
Eu já vi muita gente que aquece a peça até o laranja, e continua forjá-la até parar de "emitir luz", e isso é errado pois a fadiga gerada é extrema!
Ainda continuo acreditar é possível fazer a reposição de carbono.

R.Sfreddo
02-29-2004, 11:55 AM
Bom,eu já coloquei o meu ponto de vista sobre esse assunto,baseado no que aprendí pesquisando fontes seguras e trabalhando diariamente com isso. Mas cada um é livre para pensar o que quiser e forjar as suas facas como bem entender,essa é a base da democracia. Callega,à respeito de fazer comparativos com a performance das facas de antes e de agora;já fiz sim. Testo todas as facas que eu faço,e principalmente quando mudo o método de manufatura. E o resultado é muito melhor hoje. É difícil colocar isso em termos exatos,mas acredito que não há comparação entre as facas de hoje e as daquela época,pois o desempenho melhorou muito. E à propósito das nihon-to,todas eram feitas com "laminamento",com exeção de lâminas baratas feitas com aço importado através do comércio com portugueses e ingleses. Algum forjadores chegaram a fazer lâminas de boa qualidade à partir de aço importado,mas o processo de forjamento era o mesmo;apenas substituindo o tamahagane pelo aço. O forjamento era e é realizado à 1100 graus justamente para caldeamento,pois quando o aço está pronto ele é forjado em temperatura mais baixa,para restaurar a granulação prejudicada pela alta temperatura. O fato do forjamento ser demorado se deve ao fato deles começarem com um material cheio de impurezas,que precisa ser refinado até ter homogenidade suficiente para poder se forjar uma lâmina de boa qualidade. E também para ajustar o nível de carbono,que para se obter mais controle sobre as diversas astruturas cristalinas que formam o hamon,necessita estar entre 0.6 e 0.7 . Um processo semelhante era utilizado para o forjamento do wootz,cujo teor inicial de carbono por volta de 2.2 ou mais,era reduzido através do forjamento para um nível entre 1.2 a 1.8 em geral. Para acelerar esse processo de descarbonetação,a pastilha era recoberta com uma argila misturada com limalha de ferro ou minério de ferro refinado. Quando o nível de carbono estava satisfatório,a lâmina era forjada. Mas todo o processo anterior era realizado em temperaturas entre 900 e 700 graus,para evitar a solublização das estruturas cristalinas criadas pelo processo de fundição do wootz,pois são essas estruturas as responsáveis pela qualidade e aparência do damasco original.

Ferrari
02-29-2004, 12:30 PM
Acho que não pode existir comparação do que se fazia a 1000 anos atrás com o que se faz hoje. Antigamente não existia o alto forno e todo o aço era feito de maneira artesanal, assim como o aço utilizado na confecção das espadas japonesas. Este aço invariavelmente tinha um nível de carbono muito alto, e o forjamento neste caso ajudava a apurar a quantidade de carbono na liga.

Hoje compramos aço na loja da esquina, com fórmulas bem exatas. É a mesma coisa que comparar o polimento das espadas. Por que antigamente se fazia com pedras? Porque não existia lixas!

Também não acredito em “melhora” do aço pelo forjamento, e sim no correto tratamento térmico, que é o que faz a faca cortar bem ou mal.

caiosousa
04-29-2014, 12:16 AM
Saudações aos camaradas do forum,

Sou novato aqui e gostaria de recorrer ao conhecimento dos companheiros. Sou um curioso e entusiasta de vários assuntos e artes, e a cutelaria e joalheria são imensas paixões minhas minhas, mas infelizmente minha atual circunstancia me distancia delas, enfim.

Então ainda que minha curiosidade não me sirva para o agora, talvez sirva para alguem. Me desculpem se o assunto ja foi abordado, mas não achei nenhum topico que abordasse desta forma e achei que aqui seria o local mais propicio do que criar outro topico aleatorio.:

1ª Senhores é possivel "tingir" o aço de alguma forma? Não me refiro a simplesmente pintar superficialmente ou queimar para manchar a superficie, mas imbuir a cor durante a forja ou caldear com outro metal, ou mesmo por tratamento quimico-eletrolitico, de forma que o resultado não se perca com o uso.
Por exemplo, digamos que eu produza uma faca e quero que ela seja (ou fique) vermelha, proxima ao escarlate; apenas caldear o aço com cobre ou com mokume gane Black-red não me daria o resultado esperado, então eu poderia adicionar ao aço algum pigmento como oxido de ferro vermelho ou teria algum composto semelhante ao oxid black que me desse a cor desejada?

2ª Quais tecnicas para o emprego do proposto acima voces conhecem?

3ª Aço (carbono ou inox) aceita anodização? Recebe bem?

4ª Caso alguma das tres ou todas tenham fundamento, quais as substancias/ compostos/ materiais/ pigmentos voces conhecem para obter a colorização ou o tratamento superficial?

5ª Como posso acrescentar detalhes, como filigranas douradas à lâmina? Só rola por eletrodeposição ou também posso conseguir resultados "por engaste e encrustação"? -- sei que esses termos se referem a predrarias e joias, mas não sei como se chama para acrescentar detalhes de um metal sobre outro.

Amigos eu agradeço a paciência,

Cordialmente, Caio Augusto.

DÁrtagnan
04-29-2014, 07:30 PM
Caio, em primeiro lugar seja muito bem-vindo, eu não tenho experiência para responder exatamente estas perguntas mas como estou por aqui a bastante tempo posso te assegurar que se vasculhar o fórum, lembro de ter visto respostas para todas as tuas perguntas, talvez as palavras de busca que esteja usando não estejam te levando onde quer, mas que tem isto tem.